Ele sentou-se sobre os
degraus, horas e horas pareciam minutos. Ele devorava o pôr-do-sol com os
olhos, aprofundava-se em cada raio distribuído pela varanda, e, por mais que a
fumaça do cigarro lhe fizesse sufocar, ele parecia não se queimar.
Ele aspirava metas: uma
garrafa de uísque e vinte maços de cigarro sobre a mesa. Jornais e revistas
eram como brincadeiras antigas, nada de diversão, apenas lembranças. Calçava
uma meia e um chinelo, enquanto que uma bermuda rompia-lhe das pernas o frio.
- Ei, rapaz. Fiz um
chocolate quente pra você.
- Um chocolate quente,
Grenna? Você sabe que estou necessitando daquele uísque...
- Faz três semanas que
você se afoga nessas porcarias. Você está sendo um péssimo exemplo na vida do
seu filho, Drug.
Ele lançou o cigarro, à
distância, na lixeira. Puxou mais um cigarro, e o isqueiro. Acendeu-o, deu uma
tragada e soltou uma fumaça ao vento, olhando, em seguida, com ironia para
Greena.
- Sabe, Greena, eu não
nasci para agradar ninguém. Minha mãe abandonou a família, meus irmãos morreram
pelo país. Meu pai foi a única pessoa que sempre esteve aqui, e, mesmo assim,
nunca fiz nada para agradá-lo. Quando Andrew crescer, ele vai ter que escolher
o próprio caminho. Eu não vou pintar listras na estrada para ele seguir. Ele
que crie seus instintos. - disse,
enquanto tragava o cigarro.
- Você é como seu pai, um
ditador da realidade. Ou você realmente acha que uma criança como ele vai saber
se virar sozinho? - disse Grenna, tentando convence-lo a parar com os vícios.
- Eu soube. A não ser que
você queira me chamar de especial, eu criei meu caminho sozinho, e ele pode
fazer o mesmo. As pessoas não podem criar rotas para nós, Grenna. Até porque um
ponto de vista nunca é igual a outro.
- Você é extremamente
louco. Desse jeito, vou acabar cuidando de Andrew sozinha.
- Vá em frente. Preciso
de uísque. E já que você me fez um chocolate quente, posso beber as duas
coisas. Não faz diferença.
- Não faz questão de
participar da vida do próprio filho! Você está mudado, Drug. Muito mudado!
- Tanto faz. Diferente ou
igual, as coisas pioram. Então prefiro que elas piorem, mas enquanto eu me
divirto.
- Diverte-se?! Chama isso
de diversão? Você está estragando a si mesmo, querido.
- E por que se importa
tanto com isso? Que se dane! A vida é uma só, Grenna. Assim como você e meu pai
falharam, eu também tenho direito de falhar. Mas sou diferente em um ponto: eu
falho sorrindo, e deixando a vida das pessoas limpa.
Nether se levantou, e
jogou o cigarro sobre a grama. Aquele diálogo havia lhe assumido a cabeça, mas
a garrafa de uísque parecia mais importante agora. Deu goles extremamente
curtos e rápidos, sentindo-se tonto e pronto para deitar. Subiu as escadas com
ar de "finalmente". Entrou no quarto, trancou-se, e despejou-se sobre
a cama. Algumas palavras atormentavam sua mente, queria acender um cigarro, mas
evitava fazer isso dentro de casa. Apesar de ser ausente, como dizia Grenna, e
um ditador de realidades, ele se importava com o filho e não queria que ele se
estragasse por dois. Fechou os olhos, sentiu-se tonto. Tomou alguns
comprimidos, e adormeceu. Era o momento em que o Sol se escondia e as cortinas
não precisavam ser fechadas. Escuro e frio, o quarto abrigava um homem com a
vida extremamente entediante. Não podia se divertir, trabalhava o dia todo no
Departamento. Não podia assistir TV, o sono o derrubava feito Davi e Golias. E
quando estava acordado, o pequeno Andrew precisava de atenção. Sua vida estava
cada vez mais cansativa, e ele estava se tornando velho. Mais uma semana e
talvez ele não aguentasse mais as escadas. Imagine depender de ajuda para algo.
Era o pesadelo de Drug, ou, como chamamos desde o princípio, Nether. Estava
estendido de qualquer jeito sobre a cama, adormecido, desmaiado,
desmaterializado. Não havia qualquer barulho ou toque que o fizesse despertar.
Não naquele estado de total tontura, frieza e depressão. Talvez um pouco de
ódio também.
A noite passou rápido. A
casa morreu rápido. Ele ainda estava estendido sobre a cama, e parece que
ficaria assim até o amanhecer.
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